Crônica de um Curioso Incurável
Desde pequeno, eu não lia apenas livros. Eu lia o mundo, de preferência o que estivesse impresso em letras miúdas.
Enquanto outras crianças colecionavam figurinhas, eu colecionava informações inúteis, mas fascinantes.
Tinha uma atração quase magnética por qualquer coisa que tivesse uma lista de ingredientes ou instruções de uso, e isso incluía, confesso sem pudor, as bulas de remédio.
Meu refúgio literário favorito era o banheiro. Ali, sentado no “trono da sabedoria“, eu ignorava as revistas de fofoca e mergulhava profundamente na posologia de um antitérmico.
Decifrava efeitos colaterais e interações químicas como se estivesse diante de um mapa do tesouro.

Se fosse possível alguém observar pela porta, eu parecia um monge em profunda meditação, na verdade, eu só estava tentando entender por que raios aquele xarope não podia ser misturado com suco de laranja.
Esse hábito, claro, tinha seu preço social. Enquanto meus amigos discutiam o futebol ou o último filme, eu era o “nerd” que sabia explicar a diferença entre um conservante natural e um estabilizante sintético.
Eu não tinha muito tempo para o ócio, a vida era curta demais e havia rótulos de shampoo demais para serem analisados.

O auge dessa minha “patologia recreativa” aconteceu no supermercado.
Certa vez, passei seis horas lá dentro. Sim, seis horas. Para mim, os corredores não eram prateleiras, eram capítulos de um livro infinito. Examinava cada lata de ervilha com a dedicação de um perito criminal, conferindo datas de validade e tabelas nutricionais, como se minha vida dependesse daquela análise.
Enquanto eu quase entrava em transe diante dos iogurtes, a vida acontecia ao meu redor como um documentário da National Geographic:
- Tinha o “comprador a jato”, que jogava tudo no carrinho como se estivesse fugindo de um incêndio;
- A senhora que encarava as margarinas com uma dúvida existencial digna de Hamlet: “levar ou não levar, eis a questão (do colesterol)”;
- E o adolescente, “zumbificado” pelo celular, que batia o carrinho em tudo, guiado apenas pelo instinto.
Percebi que o supermercado é o melhor lugar do mundo para estudar a humanidade. O que começou como uma compulsão infantil por ler bulas, acabou virando uma lente para enxergar o mundo.

Hoje, aceito minha natureza, sei que sou aquele cara que perde dez minutos lendo a composição do detergente, mas que também se diverte observando como somos todos um pouco previsíveis, e engraçados, em nossos hábitos.
No fim das contas, entre uma bula de aspirina e um pacote de bolachas, descobri que o conhecimento não serve só para aprender, serve principalmente, para rir de si mesmo.

Bruno Collaço, o autor do texto







