Naquela manhã de um cinzento tão deprimente que até as pedras da calçada pareciam querer meter baixa, a A17 era um deserto de asfalto. No interior do carro da empresa, o Rui e o Manel cumpriam o ritual matinal.

-Este café da área de serviço… — resmungou o Manel, limpando o bigode. — É batizado com água das poças.

-E o chefe? Outra vez com o “vício da inspeção”.

-O que vale é que o Benfica ganhou, senão este país nem andava – atalhou o Rui, com a profundidade filosófica de quem já viu muitas rotundas.

A paz foi interrompida por um “TUM” seco. Um som metálico, com autoridade de inspetor das finanças.

— Ouviste? — saltou o Manel, já a imaginar o orçamento da oficina.

— Deve ter sido um calhau. Dá-lhe gás que o relógio de ponto não tem sentimentos.

Seguiram. Sem olhar para trás. Mal sabiam que levavam na grelha o “cadáver” mais mediático da história da indústria nacional.

No parque de estacionamento, a Simone da Contabilidade, mulher que deteta um cêntimo em falta a três quilómetros de distância, parou estupefacta diante do para-choques.

— Aquilo… são penas?

— murmurou, com o tom de quem descobre uma relíquia num sítio profano.

Em dez minutos, o parque transformou-se numa ágora. Telemóveis em riste, olhares de perícia forense e o grupo de WhatsApp “Turno B (sem chefes) a fervilhar com notificações. A imagem, desfocada e dramática, saltou de departamento em departamento, cruzando a linha de montagem até aterrar, com o peso de um relatório oficial, no gabinete da Direção de Recursos Humanos.

O Cláudio da manutenção, cujos pareceres não solicitados eram lei no refeitório, sentenciou:

“É uma espécie protegida. Ou, pelo menos, tem ar disso. Vejam a envergadura do desastre.”

Ao almoço, a cantina era um tribunal de inquisição. O Rui e o Manel, que só queriam comer o cozido em paz, eram agora os “Assassinos da A17”.

— Então, ó caçadores furtivos? É preciso trazer sal e alho para o churrasco? — gritava-lhes o Quim do Armazém.

Às onze da manhã, a empresa parou para uma “reflexão estratégica sobre o impacto ambiental“. A diretora de RH, munida de um PowerPoint com fundos de florestas tropicais, falava em “pegada ética” e “mitigação de danos biológicos”, finalizando a apresentação com um slide com a frase:

Sustainability is Love“.

— O que vimos hoje — disse ela, com a voz embargada — foi um vácuo de empatia. Uma vida foi ceifada pela pressa.

Depois do almoço, a loucura atingiu o seu apogeu. O Quim do armazém, munido de luvas cirúrgicas e uma chave de fendas, procedeu à extração dos restos mortais da grelha. O momento foi filmado em câmara lenta. Alguém sugeriu o inevitável, um velório.

Fizeram um cortejo até ao canteiro das paletes. Houve um minuto de silêncio, interrompido pelo toque de telemóvel do estagiário, o refrão de um pimba brejeiro, do Zé Pinhal.

Dois dias depois, a fábrica ainda vivia sob uma aura de santidade ecológica. Falava-se em erguer um busto à “Ave Desconhecida”. Foi então que o Quim do Armazém:

— Malta… estive a fazer “zoom” às fotos que tirei com o telemóvel novo…

— E então? — perguntou a Simone, já a preparar uma coroa de flores de plástico.

— Não. Pois, me parece que aquilo não tinha bico.

O silêncio que se seguiu foi tão profundo que se ouviu uma mosca a aterrar no balcão.

— É. Era um pompom de um cachecol. Amarelo torrado. Deve ter saltado de uma camioneta de uma senhora idosa na área de serviço de Pombal. O que nós enterrámos um bocado de acrílico da Primark.

O “Incidente da A17” não morreu, mas transmutou-se. Já não era um crime ambiental, era agora a prova viva de que, entre as chaminés de uma fábrica, basta um “tum” mal explicado e um grupo de WhatsApp para transformar um simples cachecol numa lenda imortal.

O Rui e o Manel?

Esses voltaram ao Benfica e ao café fraco, mas agora, sempre verificam a grelha do carro. Só por precaução.

Bruno Collaço, o autor do texto

Uma resposta para “Uma Tragédia em Três Atos e um Café Curto”

  1. Avatar de Ruth Collaço
    Ruth Collaço

    👌👌👌 tanto dito entre linhas
    … 🙏🙏🙏

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