Chegar aos 50 anos não significa entrar numa nova categoria biológica. Não existe uma fronteira evolutiva que transforme subitamente a nossa maneira de sentir, desejar ou estabelecer relações. O que existe é uma fase da vida em que a experiência acumulada, as transformações do corpo, a perceção do tempo e a história das relações podem alterar a forma como nos relacionamos connosco e com os outros.
Talvez uma das maiores conquistas desta etapa seja, precisamente, manter a mente aberta.
A Teoria da Selectividade Socioemocional, desenvolvida por Laura Carstensen, mostra que a percepção que temos do tempo disponível, influencia as nossas prioridades.
Quando o futuro parece vasto, valorizamos mais a exploração, a novidade e a aquisição de experiências, quando o horizonte temporal se torna mais concreto, tendemos a dar maior importância às relações e aos objetivos emocionalmente significativos (Carstensen, 2021).
Aos 50, talvez comecemos simplesmente a compreender melhor o valor do tempo. E isso pode transformar a forma como pensamos o amor.
O ser humano é uma espécie profundamente social.
A nossa evolução envolveu cooperação, cuidado prolongado dos descendentes, formação de alianças e capacidade para estabelecer vínculos relativamente duradouros.
A investigação sobre o vínculo de casal sugere que o amor romântico e a ligação entre parceiros fazem parte de uma arquitetura comportamental humana complexa, embora a evolução não determine uma única forma de relacionamento (Fletcher et al., 2015).
Esta distinção é importante, a evolução explica parte da nossa capacidade para estabelecer vínculos, mas não determina que devamos viver em casal, casar ou adotar um determinado modelo afetivo.
É aqui que, na minha perspetiva, os 50 podem trazer uma mudança particularmente interessante, a união entre duas pessoas pode deixar de ser uma resposta à necessidade e tornar-se uma expressão da vontade.
Não significa que deixemos de precisar dos outros. Somos animais sociais, e relações significativas estão associadas ao bem-estar e à saúde. Uma meta-análise de Holt-Lunstad encontrou uma associação consistente entre relações sociais e menor risco de mortalidade (Holt-Lunstad et al., 2010).
Mas precisar de relações não é o mesmo que precisar de uma determinada pessoa para nos sentirmos completos.
Existe uma diferença entre “preciso de alguém” e “quero estar contigo”. A primeira pode nascer do medo da solidão ou da necessidade de validação, já a segunda, pressupõe maior autonomia, pois, consigo estar bem sozinho, mas escolho partilhar a minha vida contigo porque considero que, juntos, estamos melhor.
Esta distinção parece-me particularmente importante.
Nesta idade, muitos de nós já acumulámos experiências suficientes para reconhecer melhor os nossos padrões, limites e desejos.
Isso não garante maturidade, a idade, por si só, não torna ninguém mais sábio, mas pode permitir uma coisa preciosa, questionar aquilo que antes aceitávamos como inevitável.
A investigação sobre vinculação adulta mostra que os padrões de ansiedade e evitamento estão associados à qualidade das relações e a diversos indicadores de saúde mental.
Outra grande meta-análise, encontrou associações consistentes entre insegurança de vinculação e maior solidão, ansiedade e depressão, entre outros indicadores (Huang et al., 2022).
A experiência pode, assim, oferecer-nos a possibilidade de reconhecer velhos padrões sem continuarmos obrigados a repeti-los.
É aqui que entra a importância da mente aberta.
Não significa abandonar convicções, mas aceitar que podemos aprender, rever algumas certezas e descobrir formas diferentes de nos relacionarmos.

Para mim, esta é uma das grandes liberdades que podem surgir depois dos 50, já não sentir necessidade de representar.
Poder dizer o que penso.
Falar sobre aquilo que desejo ou me incomoda.
Conversar sobre sexualidade, envelhecimento, inseguranças e expectativas sem transformar esses temas numa ameaça.
Poder ouvir a outra pessoa e aceitar que ela também tem uma história, opiniões e necessidades próprias.
Não considero esta experiência uma prova científica de nada. É simplesmente a minha perspetiva enquanto biólogo comportamentalista e homem de 52 anos. Mas encontro nela uma interessante correspondência com aquilo que a investigação revela sobre as relações humanas.
Envelhecer não significa deixar de ter sexualidade, por exemplo. Uma revisão sistemática sobre sexualidade na idade avançada mostrou que a intimidade e a sexualidade continuam relevantes para a qualidade de vida, apesar dos estereótipos que frequentemente associam envelhecimento a ausência de desejo (Sinković & Towler, 2019).
A pergunta mais importante não é simplesmente, “Tenho alguém?”
Mas sim, “Estamos bem juntos?”
Podemos viver acompanhados e estar profundamente sós. Uma relação pode existir formalmente e, ainda assim, faltar-lhe proximidade, respeito ou liberdade.
Por isso, mais importante do que o estado civil é a qualidade das relações que construímos.
É aqui que vejo uma das possibilidades mais interessantes da vida depois dos 50.
Já não precisamos necessariamente de alguém, não só, que nos complete. Podemos escolher alguém com quem partilhar aquilo que já somos.
Não precisamos de uma pessoa que nos salve da solidão. Podemos querer alguém cuja presença torne a nossa vida mais rica.
Não precisamos de alguém que confirme permanentemente a nossa identidade. Podemos querer alguém diante de quem tenhamos liberdade para a questionar.
Aos 52 anos, vejo esta fase da vida como uma oportunidade para continuar a aprender. Não porque a experiência nos dê respostas definitivas, mas porque nos pode dar melhores perguntas.
Continuar curioso.
Continuar disponível para mudar de opinião.
Continuar capaz de nos surpreendermos.
A ciência não diz que todas as pessoas se tornam mais maduras aos 50, nem que as relações iniciadas depois dessa idade são necessariamente melhores.
Mostra, porém, que as prioridades socioemocionais podem mudar com a perceção do tempo, que os vínculos continuam fundamentais e que a intimidade e a sexualidade permanecem relevantes ao longo da vida.
O resto pertence à experiência.
E talvez seja precisamente essa a grande oportunidade, perceber que uma relação não precisa de existir porque duas pessoas não conseguem viver separadas.
Pode existir porque estão bem sozinhas, mas escolhem estar juntas, e porque, juntas, conseguem estar ainda melhor.
Talvez amar depois dos 50, seja, não procurar alguém para preencher um vazio, mas encontrar alguém com quem valha a pena partilhar o espaço que já conseguimos construir dentro de nós.

Bruno Collaço, o autor do texto







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