A liberdade é um território sagrado
Mas ninguém atravessa esse território sem deixar algo pelo caminho.
Há sempre um preço, ainda que invisível, e quantas vezes pago em silêncio.
Será que é por essa razão (pagar em silêncio) que tantos a desejam, mas tão poucos a sustentam, por não compreenderem que a liberdade não é uma porta aberta, é uma travessia interior.
Eu aprendi que ser livre não é fazer tudo o que quero, mas mais ainda em não me trair enquanto faço escolhas.
A liberdade começa quando deixo de pedir permissão para ser e existir.
Quando paro de encolher a minha voz para caber em espaços que nunca foram feitos para mim. Quando deixo de negociar a minha verdade para manter a paz dos outros.
A liberdade é uma fidelidade radical ao que pulsa dentro — mesmo quando o mundo não entende, mesmo quando o caminho ameaça ficar mais estreito.
Mas há um preço. Há sempre!
O preço da liberdade é a solidão de alguns inícios.
É o desconforto de desaprender velhas versões de mim.
É a coragem de perder pessoas que só sabiam amar a minha serventia, disponibilidade e prisão.
Liberdade é o silêncio que chega quando deixo de ser previsível.
É o risco de ser mal interpretada, julgada, descartada.
A liberdade cobra caro porque exige que eu me responsabilize pela minha própria vida, e isso só por si assusta.
Ainda assim, é o único preço que vale a pena pagar.
Porque a liberdade devolve-me a pele.
Devolve-me o corpo inteiro.
Devolve-me a respiração que antes eu prendia para não incomodar.
Devolve-me a dignidade de caminhar com a cabeça erguida, mesmo quando temo por dentro.
Devolve-me a possibilidade de criar uma vida que faça sentido para a minha alma, não para o olhar alheio.
A liberdade é e tem sido uma espécie de renascimento.
Dói!
Rasga!
Expõe!
… mas abre espaço para uma força que nem eu sabia que existia em mim.
E sabem que mais? Quando finalmente me encontro do outro lado, percebo que nada do que perdi era realmente meu.
Que fica é o essencial – a minha verdade, a minha inteireza, a minha capacidade de escolher e até de não (ter que) escolher.
A liberdade não é um destino.
É um pacto diário.
Uma prática espiritual continua.
Uma forma persistente de honrar a vida que me habita.
E o preço?
O preço é alto, sim.
Mas viver “aprisionada” custa infinitamente mais.

Ruth Collaço, a autora do texto







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