Naquele tempo, pela frescura da manhã, passava na rua a carroça da hortaliça. Morava a Avó numa rua de bairro da periferia citadina, com cheirinho a eucaliptos e o som quase impercetível da Lisboa-Porto .Agarrava no porta moedas e na grande alcofa, abria o portão do quintal preparando-se para as compras das necessidades das filhas, netas e genros, numa gestão eficaz, naquela casa tão cheia,como nenhum de nós jamais teria.
O vendedor dava à manivela do travão da carroça e o burro quase escorregava na calçada.
Compras feitas, a Avó tratava metodicamente dos legumes,bem arrumados no alguidar de barro, com uma pinguinha de água e borrifos. Eu adorava e ainda adoro, as cebolinhas mais pequenas ,cortadas às rodelas numa carcaça com um fiozinho de azeite.
A Avó dava!
Se não me engano, de dois em dois dias, passava a carroça do leite: uma bilha de zinco enorme, e a avó trazia o porta moedas e as duas cafeteiras de litro querendo-as cheias. Às vezes dava para a Tia fazer um delicioso pudim.
A Avó dava!
Depois, a praça abriu, e o leite vendia-se engarrafado com uma tampa de papel de alumínio, que não sei porquê gostava de abrir e fazer moedas para brincar às “casinhas” com outras crianças, ou sozinha, era como e onde calhava. Podia revirar o quintal, o meu tão saudoso quintal, a destruir coisas pensando que estava a fazer bem:
Os pneus do carro do tio que eu pintei, pois achava-os escuros e feios, a bicicleta do tio que desmanchei, só porque o ouvi dizer que o tinha de fazer, e mais coisas de pestinha.
Chegada a hora do lanche estava exausta, mas a Avó arranjava duas grandes fatias de pão escuro com marmelada.
A Avó dava!
E a vida passou veloz, seguiu o seu rumo e os baluartes de então perdiam as forças e partiam, como as paredes da casa perdiam os cheiros e as cores.
Um dia, a minha querida Avó desistiu de fazer cem anos, esteve quase, e o Pilar da minha infância, ruiu, relegado para o passado onde os outros Pilares ergueram o meu Templo.

Maria Dulce Araújo a autora do texto







