Foi ao café, entre uma reunião e outra, que a conversa surgiu, como surgem quase sempre as conversas que mais importam, de lado, sem hora marcada. Duas colegas de trabalho, mães de adolescentes, uma com um rapaz de catorze anos, outra com duas filhas mais crescidas, trocavam observações que pareciam anedotas soltas, mas que, somadas, desenhavam um retrato incómodo.

Nenhuma delas vem da ciência, falavam do dia a dia, do cansaço de quem educa em casa o que o mundo lá fora parece desfazer todos os dias.

Uma contava que o filho já não sabia pedir desculpa sem que alguém filmasse a cena.

A outra dizia que a filha mais nova media o valor de uma amizade pelo número de respostas a um story.

E as duas, quase ao mesmo tempo, perguntaram-me se ainda fazia sentido falar de honra, de palavra dada, de vergonha, num mundo onde tudo se apaga e se substitui num scroll.

Fiquei calado uns segundos, à procura de uma resposta que não soasse a discurso.

Porque não é nostalgia o que sinto quando ouço isto,  e enquanto biólogo desconfio particularmente de nostalgia, que costuma inventar um passado que nunca existiu. Mas há aqui algo que a ciência do comportamento reconhece sem hesitar:

Certos valores que hoje soam a antiguidade não eram ornamentos morais.

Eram, literalmente, a argamassa que permitiu à nossa espécie cooperar em grupos maiores do que a família imediata.

Robert Trivers, ainda nos anos setenta, mostrou como o altruísmo recíproco só se sustenta quando existe memória social e reputação,  quando “quem ajuda hoje” pode confiar que será ajudado amanhã, e quem trai é reconhecido e evitado.

Christopher Boehm, a estudar sociedades de caçadores-recolectores, descreveu como a honra e a vergonha funcionavam como mecanismos de nivelamento:

Quem se comportava com arrogância ou desonestidade era corrigido pelo grupo, não por lei escrita, mas por olhares, por exclusão temporária, por vergonha partilhada.

Frans de Waal, a observar primatas, encontrou rudimentos de justiça e reciprocidade muito antes de existir qualquer código escrito.

Respeito, honra, honestidade, caridade, não nasceram em sermões.

Nasceram porque grupos que os praticavam sobreviviam melhor do que grupos que não os praticavam.

O problema, hoje, não é que os adolescentes tenham deixado de ser humanos.

É que os sistemas que antes reforçavam esses valores, a proximidade física, o olhar do outro, a reputação construída lentamente numa comunidade que não esquece, foram substituídos por ambientes desenhados para outra coisa: para captar atenção, não para construir carácter.

Jonathan Haidt, no seu recente trabalho sobre a chamada “geração ansiosa“, argumenta que a infância mediada por ecrãs trocou brincadeira livre, risco social real e consequências tangíveis por uma vida vivida em audiência permanente, onde o erro nunca desaparece e a validação é instantânea, mas vazia.

E Sarah-Jayne Blakemore, estudando o cérebro adolescente, lembra-nos que é precisamente nesta fase que o sistema de recompensa social está mais sensível, os adolescentes não são fracos por se deixarem capturar por likes, são biologicamente programados para procurar aprovação do grupo. O que mudou foi o grupo, e o que ele recompensa.

Talvez por isso a pergunta das minhas colegas não me tenha soado a queixa de mães antiquadas, mas a algo bem mais urgente. Não se trata de exigir aos filhos que voltem a um tempo idealizado que, aliás, também teve os seus problemas. Trata-se de lhes devolver contextos onde respeito, honestidade e caridade voltem a ter consequência real, onde pedir desculpa signifique alguma coisa porque há alguém à frente que sente essa desculpa, e não apenas um ecrã que regista uma reação.

A biologia do comportamento não nos pede para recuar no tempo; pede-nos para reconstruir, com alguma inteligência, aquilo que sempre sustentou estes valores, proximidade, memória, reputação, consequência, agora dentro de um mundo digital que ainda não aprendeu a reproduzi-los.

Acabámos o café sem resposta fechada, como devem terminar as boas conversas. Ficou, porém, uma certeza ao mesmo tempo incómoda e esperançosa, que tentei devolver às minhas colegas antes de voltarmos ao trabalho: se estes valores sobreviveram a centenas de milhares de anos de evolução humana, não é por serem frágeis ou antiquados. É porque, sempre que os recriamos, em casa, à mesa, numa conversa de café entre duas mães cansadas e um biólogo curioso, alguma coisa essencial na nossa espécie volta a encontrar o seu lugar

Bruno Collaço, o autor do texto

2 respostas a “O que ainda nos prende”

  1. Avatar de Ruth Collaço

    muito bom, Bruno!!!
    partilhado!

  2. Avatar de Aparecida Lacet
    Aparecida Lacet

    Observa-se entre os jovens dessa geração um descompasso entre a ânsia por saber e a comodidade de obter tudo pronto nessa era digital. Se não romperem essa bolha, grande parte deles direcionará suas forças mais para receber do que para conquistar e se empenhar, e isso gera um comportamento egoísta — um dos fatores que ameaça a humanidade, pois impede que se reconheça o outro como elemento da evolução existencial. Nós, adultos, podemos transformar essa realidade ao acompanhar esses jovens com consciência, firmeza, afeto e informação.

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