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A carta 

A minha carta foi jogada faz muito tempo, numa mesa transparente num jardim idílico, onde só a vida a escolheu. As árvores frondosas projetavam sombras frescas ondulantes, e as florinhas resistentes enfeitavam os caminhos 

Um dia, a minha carta voou através do ar, avisando-me que voltaria. 

Senti algum desconforto pelo repentino desamparo. Porém, em mim nasceu a criança ladina, extrovertida e rebelde, meiga e atenta, curiosa e paciente. Passei por uma fábrica de barro e quis ser terra molhada, assim me moldando, na magia do início de todas as coisas na olaria da existência. 

Brincava eu com as estrelas duma noite límpida, quando no parapeito da minha janela a carta pousou como se ave fosse.

Logo ali matei saudades, contei-lhe tudo o que sabia, adormecendo exausta da hora tardia. 

A Avó acordou-me, a carta saiu do esconderijo sob a almofada e disse:

– No princípio nem tudo é fácil, vais ter muito que começar e acabar

! Eu volto!

Sorriu, afagou o meu rosto com as suas mãos desenhadas e rodopiou janela fora. Intrigada, ensonada fui ter com a Avó à cozinha. Ela não sabia o que era isso da carta, “ coisas da minha cabeça “ disse ela. Eu não liguei, mas senti-me rica porque sabia. 

E fiquei a saber muito mais, enquanto ia chegando às prateleiras dos armários para ajudar a Mãe a confecionar o sustento. 

Com o tempo, esquecemos o ontem, tomando o foco no agora para organizar o depois. Quase não me lembrava da carta quando a vi na minha secretária, um dia em que cheguei mais cedo ao emprego. Falámos por telepatia embrulhada em saudade. 

Vais aprender  a partilhar a tua vida

Fica atenta!

Eu volto

Mais uma vez partiu. 

Procurei por todos os meios voltar a encontrar a carta guia, a carta astral, a carta que nunca escrevi, e  o mistério sempre a escondê-la.

No meu cabelo começou a nevar e  não há dia que não me lembre dela, e sim, reaprendi a saudade. 

Sei que não vai voltar…seguirei o meu caminho intuitivo que me levará até ela.

Maria Dulce Araújo, a autora do texto

Uma resposta para “A carta ”

  1. Avatar de Ruth Collaço

    Tão lindo! voei com a carta! e quando la chegares, espero ver-te sorrir, que olhemos para trás e vejamos as nossas pegadas bem delineadas pela estrada. Caminhemos!

É muito bom ter você aqui!

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