Tu não me preparaste para isto!
Disse-lhe enquanto me preparava para me deitar. Estava mesmo zangada com ela.
Ela… a Voz tinha-me avisado que era preciso curar… que a cura é um processo necessário para a minha evolução. Que a mesma implica um despir de todos os apegos, dos passados pesados, nos egos e afins…
Só que não… Não me tinha preparado para o viria a ser mesmo passar pela cura.
A Voz que sempre me pegou pela mão. Ela que era sempre a primeira a aparecer, para falar, avisar, repreender, conversar… desta vez nem piou! Eu sei que ela me ouviu quando do alto da minha vivida experiência a reclamar e a queixar-me.
Calada estava e muda ficou. Eu sentia-a, mas não me falou, facto que me deixou ainda mais irritada. Estranhei, e como uma criança rebelde tive vontade de lhe apontar o dedo e acusar de novo “Tu não me disseste que ia doer tanto.”
De repente a memória remeteu-me para a minha infância (sempre a minha criança interior que reclama quando nada entendo de alguma situação que me “cutuca” a razão) … aqueles momentos antes de ir apanhar uma vacina, limpar um joelho esfolado, os meus pais me preparavam para a dor. Tão bem o fazia que no fim eu acabava sempre por admitir que “afinal não doeu muito” … e nada que o colo do meu pai ou a voz da minha mãe não apaziguasse. E a Voz era assim também… desta vez deixou-me ali, sozinha, a sentir a dor.
Mas. Ela sabe sempre como lidar comigo. Conhecendo-me tão bem, sabe que quando me dão estas fúrias, o melhor mesmo é deixar-me em paz até a espiral se ir desfazendo…
E quando digo “espiral” quero mesmo dizer ego.
E a verdade, é que dentro do espaço de silêncio que ela me ofereceu, percebi com toda a somatória de tudo o que sou, fui e serei, de tudo o que já aprendi (ou quero acreditar que sim) em nada me preparou para a consequência sentida na pele do que é trabalhar a cura.
Fala-se em cura, fala-se em sarar, e em toda a parte se anunciam palestras, seminários, etc. …
Mas poucos se lembram que para curar, sarar, é preciso encontrar e entender a ferida.
Encontrar porque implica termos que olhar para a ferida, validar que ela existe…
E é aí que começa a verdadeira luta interior: – olhar para a ferida faz-nos lembrar o momento e circunstância em que ela aconteceu…
Entender a dor…
Ui! Entender implica também perceber o contexto, motivo e em “ultimatum” perceber onde começou a dor, a ferida, a queda, o erro…
Todos nós sabemos que tratar uma ferida faz doer, faz arder… que é preciso “tocar” para limpar, lavar… e quantas vezes com o sal de lágrimas. Que é preciso cerrar os dentes e enfrentar o “curativo”…
Esquecemo-nos que sarar a dor, ajuda-nos a esquecer o momento em que aconteceu, quem a provocou… resgatando assim o amor que por alguma razão (porque cada um de nós tem a sua história) passou por uma fraqueza ou devaneio causando em nós o reflexo de uma outra dor, tantas vezes desconhecida por nunca ter sido reconhecida e entendida (a dor).
Que a vida, a família, os relacionamentos são “O” laboratório onde o remédio necessário para sarar feridas é feito.
São os nossos pais, os nossos primeiros professores, e os filhos os nossos primeiros e mais atentos alunos…
São eles que provocam as feridas e dores mais profundas, e escondidas…
E ferida que é ferida, arde para sarar!
E a Voz então sorriu… embalou-me na sua Luz, e eu deixei-me dormir.
Agora que tinha encontrado e entendido a dor, já sabia como sarar… Com amor e (auto)perdão.

Ruth Collaço, a autora do texto







