(floresta de betão, não!)
Não quero ser cidade
Muro alto
Floresta de betão
Nem quero ser a fala muda
No olhar caído do vizinho do rés-do-chão.
Não quero ser viela estreita
Ou imagem deslumbrante
De sacada colorida vazia por dentro
Nem ser janela entreaberta
Para a rua da frustração
Onde a prostituta bamboleia o corpo
E ao faminto de sexo lança a teia da sedução.
Não quero ser mirada indiscreta
Para intimidades sem lugar e sem tempo
Nem o soalho que range aflito
Sob as pegadas da solidão
Nem o barulho da torneira
Que se abre a hora incerta
Quando aos tardios apetece
Um banho de imersão.
Não quero ser a sirene das fábricas
Nem o fumo cinzento das máquinas
Que se espalha pelo ar.
Não quero ser a confusão da estrada
A rotunda saturada pela ‘transitação’.
Não quero ser atropelo
Nem a buzina ou a voz que se exalta
Na via apinhada da circunvalação
Também não quero ser correria para o cais
Tantas vezes, da desilusão.
Não quero ser cenário de brigas
Nem palco de rixa de gente sem brio
E sem educação
Ou o quarto frio, sem teto
Onde os leitos são feitos de cartão.
A cidade inquieta
Ilude
Esmaga
Aperta por dentro
Corre apressada
Asfixia os olhos do corpo e da alma
E nunca espera.
Ali não há horas mortas.
Mas se tu me disseres que não é bem assim
Que a cidade também tem encantos
Que tem seus lagos e estátuas nos jardins
Que tem museus e bibliotecas sem fim
Monumentos e calçadas seculares
Muitos restaurantes e bares
Gente boa, com talentos e valores
Movimento, cor, alegria e diversão
Arte de rua, muita história e feitos de louvor
Nada contestarei se as cores da cidade
Te fazem feliz
Mas eu…
Eu quero-me no extenso mar da serra
No meio do verde e dos penedos
Sob o infinito azul-céu
Onde me abraça a quietude
E respiro o aroma da urze e da flor do sargaço.
Quero-me no embalo do vento que sopra forte
No bamboleio sedutor da giesta em flor
Na brisa suave que me traz dos pássaros o canto
No som das campainhas das cabras
Que pastam ao redor
No assobio firme e melodioso do pastor.
Porque ali ninguém se atropela
Ali nunca se fecham as janelas
E as portas estão sempre abertas à felicidade
Convidam a entrar e a ficar
A comer e a beber, a confraternizar.
Ali canta-se e dança-se sem incomodar
Porque, ali, todo o nome é Liberdade.
Mimos Beijos e Outros Aconchegos,

Dulci Ferreira, a autora do poema








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