Rabisco no teu corpo as palavras que o silêncio me traz. Ouço-as com tristeza, porque já não gritam -“Saudades de ti, amor!”
Já não pintam telas de emoção nem retratos com boa ou má expressão, em jogos de luz e cor. Faz tempo que não dizes
-“Bom dia, dorminhoca!” ao alvorecer, nem enfeitas de beijos o bouquet dos meus lábios, quando a tarde cai, porque há sempre muito para fazer e não há tempo, não há tempo para mais.
Bem sei que a culpa é dos dois, que, por vezes, te fecho as portas do coração, quando penso não haver nada a dizer., isto é… quando as palavras me soam banais. E tu, que tanto tens para contar, ficas assim, calado, na estante guardado à espera que te traga novidades dos demais.
Lembras-te dos sonhos que partilhávamos pela noite dentro?
As conversas ao serão!…
As histórias contadas à lareira, eu, quente, envolta no cobertor de lã, tu, devolvendo-me a magia de outras vidas, despertando com prazer, a minha imaginação.
Hoje memorei o poema inacabado que somos.
Recordas aquele abrigo que sempre quis construir para nós?
A cabana na floresta, com lareira e uma manta a envolver-nos nas noites de luar, sempre que o riacho nos convidasse a escutar o doce murmurejo da sua voz.
E as árvores bailando ao vento… a brisa acariciando a pele… as rãs a coaxar… o mocho a mirar-nos do seu poiso altaneiro, e os lobos a uivar.
Lembras?
Medos, não tínhamos, porque estávamos juntos e, juntos, tu sabes, sempre fomos a força maior do universo.
Há tanta coisa de que falar! Tantos cenários guardados na memória!…
Se me perguntares pela ceifa e pelas ceifeiras, dir-te-ei que são da minha infância uma ténue verdade. Que recordo com carinho as medas de centeio espalhadas pela eira, o barulho dos motores da malhadeira e, até, com alguma nostalgia, da malhada, para mim brincadeira sem igual, ao resvalar pela palha amontoada.
Ainda me vejo a comer da travessa comunitária e a beber da talha a mais fresca água.
Lembro da broa de milho acabada de cozer e de comê-la ainda quente da fornalha…
Mas, sobre isso, tu terás mais a dizer!…
Quanto ao poema inacabado… fica à espera que alguém lhe dê um fim ou, então, continuidade numa nova criação.
Não podemos ter medo de nos dar, de percorrer o imaginário dos mais pequenos ao cair do crepúsculo ou ser canção de embalar.
É nos sonhos das crianças que nos queremos eternos.
Elas são o garante de todas as possibilidades, enquanto a consciência as não toma.
Já dizia La Fontaine,
“A juventude, cheia de ilusões, acredita que tudo pode. A velhice é impiedosa”. (1)
In “Utopias do Pensamento”, Vol. II – “Entre o Sonho e a Realidade”, Chiado Books, Editora, 2018 (editado).
1 – As mais belas fábulas de La Fontaine – Hemma 1997 – da edição portuguesa 1999 – Livraria Civilização Editora, Agosto 1999.

Dulci Ferreira a autora do texto







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