(homenagem à tia Maria)
Recordo, amiúde, algumas passagens da minha vida que ainda hoje me despertam sentimentos profundos, de alegria, tristeza e saudade. Falo, neste caso, das minhas primeiras visitas à cidade do Porto, esse “belo casario” que se divide entre o romantismo dos seus monumentos históricos e os cenários pictóricos da sua zona ribeirinha, refletida nas águas do Douro.
A nostalgia chega com a doce lembrança da tia Maria.
Ainda casados de fresco, eu e o meu marido aproveitávamos quase todos os fins de semana para passear e visitar familiares em algumas cidades do país. Ele tinha muitos parentes no Porto e arredores, que ali se radicaram com as suas famílias, depois da revolução de abril, ao retornarem de Angola.
De entre todos, destaco a mais generosa, simpática, doce e desprendida: a tia Maria.
De um enorme coração, a tia Maria dava o que tinha e o que não tinha, vivendo, ela mesma, com algumas dificuldades. Tinha um filho, o António, e um neto, o Nelito (Manuel), de quem fora mãe e avó, pois que ela mesma o criara. O filho vivia amargurado e não lhe facilitava a vida, enfornando-se no quarto, logo que chegava do trabalho, fazendo o mesmo aos fins de semana. Pouco convivia com a mãe ou com o próprio filho. Era divorciado. A mulher abandonara-o e à criança, colocando esse fardo às costas da sogra, já idosa e sem condições para assumir tal responsabilidade.
A tia Maria vivia numa casinha com parcas condições na rua Alexandre Herculano, perto das Fontaínhas.
Tinha dois quartinhos muito pequenos, sendo um no sótão, onde o frio e o calor se faziam sentir com a mesma intensidade:
Verões demasiado quentes, invernos por demais hostis.
A casa de banho tinha apenas uma sanita e um lavatório. Para tomarem um banho quente, havia uma instância comunitária que usavam de vez em quando.
Apesar das limitações, a casa da tia era muito limpinha, e ela fazia sempre questão de nos acolher e proporcionar momentos de grande ternura. Embora já com uma certa idade e algumas limitações na mobilidade, dispensava-nos a sua cama no piso de baixo, tendo que aceder ao sótão por uma escada de madeira, estreita e íngreme, que ela subia e descia quase rastejando para não cair.
Mas era da vontade dela que fosse assim e não valia a pena contestarmos as suas decisões.
Hoje, recordo-a com saudade e entristeço-me por saber que acabou sozinha numa casa de acolhimento que eu nunca soube onde era para poder visitá-la, perdendo-me também do filho António e do neto Nelito que chegara a viver com um jovem brasileiro na pequena casa da tia, depois de a “depositarem” na tal casa de acolhimento que pertencia, diziam, a uma igreja evangélica.
O que terá sido feito dessas pessoas, não sei, embora, há pouco tempo, alguém tenha “atirado para o ar” que o Nelito estaria, atualmente, a viver com o companheiro na Finlândia.
A tia deu-me a conhecer o Porto na sua dimensão.
Foi com ela que assisti pela primeira vez a um filme no cinema Batalha.
Que joguei ao Bingo numa das casas de jogos da cidade.
Que admirei as pitorescas fachadas das casas da Ribeira.
Que atravessei a pé a ponte de D. Luís I para o lado de Gaia, onde visitei as caves do vinho do Porto e onde saboreei os melhores pastéis de bacalhau, acompanhados por um espirituoso cálice de vinho do Porto.
Foi ao lado da tia Maria que vi os barcos rebelo a deslizar nas águas do Douro.
Que admirei pela primeira vez a imponente torre dos Clérigos.
Que visitei os magníficos jardins do Palácio de Cristal.
Que passeei pela avenida dos Aliados em final de campeonato de futebol.
Que assisti a um concerto no Coliseu e que vi uma peça de teatro no Rivoli, depois de saborear, no restaurante o Lorde, a melhor das francesinhas.
Ninguém servia francesinhas tão saborosas em toda a cidade do Porto como o Lorde. Infelizmente, esse restaurante não existe mais.
E aquele sotaque que eu gosto tanto, carago!
A comida deliciosa a incluir as tripas à moda do Porto.
Quanta nostalgia!
Infelizmente, nunca consegui visitar a livraria Lello. Talvez por haver filas de turistas à espera para entrar ou pela minha falta de paciência em esperar. Ou, ainda, a pressão do meu marido, dizendo que voltaríamos noutra altura. Quem sabe, se proporcione um dia desses?
A tia conhecia a cidade como a palma das suas mãos.
Levou-me a visitar os famosos azulejos historicistas da Estação de São Bento.
O icónico salão árabe do Palácio da Bolsa.
A arquitetura neoclássica do Hospital de Santo António.
A majestosa Sé Catedral, com origem no século XII.
A igreja de São Francisco.
O Mercado do Bulhão, entre outras referências importantes daquela cidade.
Houve uma altura em que, já com uma filha nos braços, decidimos ir celebrar a noite de São João no Porto. Toda a gente devia viver essa experiência, pelo menos uma vez na vida.
É uma noite de folia extraordinária, onde não há diferenças ou preconceitos, apenas diversão.
As pessoas percorrem as ruas a bater com os martelinhos na cabeça umas das outras e ninguém leva a mal.
Tem também o espetacular fogo de artifício junto à ponte.
Queríamos que a tia saísse connosco, que se divertisse um pouco, mas ela insistiu em ficar a tomar conta da minha menina para que eu e o meu marido pudéssemos aproveitar ao máximo a noitada.
Quando chegámos a casa, já madrugada, percebemos que a tia havia varado a noite, preocupada com a ideia de que algo de ruim nos pudesse acontecer.
Afinal, éramos meninos do interior, geralmente visados por delinquentes e drogados.
Nunca ouvi a tia lamentar-se, fosse pelo que fosse. Resiliente, apresentava sempre um sorriso no rosto, escondendo de todos qualquer mágoa ou preocupação.
A ela a minha gratidão, pelo carinho e aconchego e por me dar a conhecer a maravilhosa cidade do Porto.
Que descanse na paz de Deus!
In Antologia PORTO – UMA CIDADE COM ALMA – Volume II – Tomo I – Chiado Books, 2026 (Vários autores).

Dulci Ferreira, a autora do texto







Comente aqui