O que a perda de um parente de sangue nos ensina sobre estar vivo
Há um momento, na vida de quase todos nós, em que o mundo deixa de ser sólido. Não se trata de uma metáfora vazia, é uma descrição relativamente precisa do que acontece no cérebro e na mente humana quando perdemos um pai, uma mãe, um irmão ou um filho.
Como biólogo comportamentalista, e depois de anos a observar como diferentes culturas lidam com a morte, aprendi a desconfiar de explicações simples para a dor do luto.
Ela é, ao mesmo tempo, neurológica, psicológica, filosófica e social, e raramente segue a lógica que esperaríamos.

A psicóloga Ronnie Janoff-Bulman cunhou, nos anos 90, o conceito de «mundo presumido»: o conjunto de crenças tácitas que usamos para «navegar a vida», que somos relativamente seguros, que o mundo tem alguma ordem, que as pessoas que amamos vão continuar lá amanhã.
A perda de um parente de primeiro grau não belisca essas crenças; estilhaça-as.
E aqui chegamos a um ponto que a cultura popular tende a ignorar, este efeito devastador não depende de a relação ter sido boa.
A teoria da vinculação de John Bowlby mostrou que os laços com os nossos cuidadores primários e com a nossa progenitura são estruturais, moldados pela evolução, instalando-se independentemente da qualidade emocional do vínculo.
Um pai ausente, uma mãe difícil, um filho com quem a relação nunca foi fácil, todos ocupam, no cérebro, o lugar reservado a «figura de vinculação primária».
Por isso, perder um parente com quem a relação foi complicada ou dolorosa pode ser tão devastador quanto perder alguém com quem tudo corria bem, por vezes mais.
A literatura chama a isto «luto ambivalente», a dor mistura-se com raiva, culpa e um sentimento de assuntos por resolver, porque a morte fecha definitivamente a porta a qualquer reparação futura.
O corpo, entretanto, não distingue, ativa-se o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, sobem os níveis de cortisol, o sistema imunitário pode ficar comprometido durante meses, e estudos de neuroimagem mostram regiões associadas à dor física a ativarem-se quando recordamos a pessoa perdida. O luto dói porque, no nível mais básico do cérebro, é interpretado como uma lesão, e essa lesão não pergunta se a relação era perfeita.
Um efeito menos falado desta perda é a alteração na perceção do tempo.
Filhos que perdem pais relatam, com frequência notável, uma sensação repentina da própria mortalidade, como se um escudo geracional tivesse caído, mesmo quando a relação foi marcada por distância ou conflito.
Pais que perdem filhos descrevem uma rutura na ordem natural esperada da vida, que nenhuma cultura preparou verdadeiramente os seus membros para suportar.
Irmãos que perdem irmãos falam de uma testemunha de infância que desaparece, levando consigo memórias que mais ninguém pode confirmar, mesmo que a relação adulta se tivesse tornado distante.
Filosoficamente, isto aproxima-nos do confronto com a finitude que os existencialistas descreveram.
Heidegger argumentava que é a consciência da morte que nos devolve à autenticidade, não como ideia abstrata, mas como experiência vivida na pele de quem perdeu alguém. Muitas pessoas relatam, após o luto, uma reorganização de prioridades: o trivial perde importância, o essencial ganha contornos mais nítidos.
A psicologia contemporânea chama a isto crescimento pós-traumático, e mostra que uma percentagem significativa de enlutados relata, anos depois, uma relação mais profunda e menos automática com a própria vida.

Rambu Solo – O ritual fúnebre da tribo Toraja
Nas minhas viagens, ficou-me uma certeza, as sociedades sem psicologia clínica formal desenvolveram tecnologias sofisticadas para atravessar o luto.
Os Toraja, na Indonésia, mantêm os corpos dos falecidos em casa durante meses, tratando-os como «doentes» antes do funeral, num processo gradual que evita o choque do corte abrupto.
Em comunidades irlandesas tradicionais, o velório combina luto e celebração no mesmo espaço, reconhecendo que dor e memória afetuosa não são opostos.

Funeral da tribo Bororo – O Primeiro Enterro (o inicio do cerimonial)
Entre povos indígenas da Amazónia, os rituais de luto envolvem toda a comunidade durante períodos prolongados, distribuindo um peso que, nas sociedades urbanas modernas, recai quase só sobre o indivíduo.

Mori – A Vingança do Morto (o fim do cerimonial, feito após a exumação dos ossos)
Van Gennep chamou a estes processos «ritos de passagem», com três fases: separação, limiar e reintegração, e é exatamente nesse limiar incómodo, «nem aqui nem lá», que o luto nos coloca, deixamos de ser «filho de» ou «pai de» como éramos, e ainda não sabemos bem quem somos a seguir.
Talvez a verdade mais honesta seja esta, perder um parente de primeiro grau, perfeito ou imperfeito, amado com facilidade ou com dificuldade, não é algo de que simplesmente «se recupera».
É mais parecido com uma fratura óssea que solda, fica mais forte no ponto da rutura, mas nunca volta a ser exatamente como era.

A despedida no Vazio
Essa nova forma de estar no mundo, mais consciente da fragilidade humana e, por isso mesmo, mais atenta ao que importa, é talvez o legado mais humano que a dor nos pode oferecer.

Bruno Collaço, o autor do texto







