Estar mais perto da verdade é como encostar o ouvido ao chão antigo da terra:
De repente, o que parecia silêncio revela camadas, pulsações, pequenas fricções que sempre estiveram ali, mas que só se deixam ouvir quando nos aproximamos com o corpo inteiro.
A realidade, vista de longe, é sempre uma espécie de miragem — uma forma que tremula, que se adivinha mais do que se conhece.
Mas quando nos inclinamos, quando deixamos que a pele toque o que antes apenas observávamos, algo se rearruma dentro de nós.
A verdade não grita; ela respira.
E é nessa respiração que a realidade se torna nítida, quase táctil, quase nossa.
Há uma nitidez que só chega quando deixamos cair as defesas, quando paramos de olhar o mundo com os olhos treinados para a distância. Aproximar‑se da verdade é aceitar que ela tem textura, que às vezes arranha, às vezes aquece, às vezes abre fendas onde julgávamos haver chão firme.
Mas é também perceber que a realidade não é um bloco duro e imutável — é um organismo vivo, que se revela por camadas, como se cada gesto nosso fosse uma lâmina que retira o excesso até que o essencial apareça.
E, nesse instante, compreendemos que a verdade não se impõe: ela convida.
E talvez seja isso que uma mulher que escreve com a pele aprende cedo
Que a verdade não se alcança com pressa, mas com proximidade.
Que é preciso encostar o peito ao mundo, deixar que o corpo seja bússola, que a intuição seja mapa.
Porque só quando estamos suficientemente perto é que percebemos que a realidade não é um enigma a decifrar, mas uma presença a sentir. E, ao senti‑la, algo em nós se alinha, como se a verdade fosse um regresso ao que sempre soubemos, mas tínhamos esquecido no caminho.
(Ventos Sábios)

Ruth Collaço, a autora do texto







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