Quem És Quando Ninguém Está a Olhar?

Existe uma pergunta silenciosa que acompanha quase todas as pessoas, mesmo aquelas que aparentam maior segurança emocional.

— Quem sou eu para além daquilo que os outros esperam de mim?

Talvez nunca a tenhas formulado exatamente desta forma, mas ela costuma surgir em momentos específicos, quando estás sozinho, quando sentes que desempenhas um papel que já não encaixa totalmente em ti ou quando percebes que certas escolhas da tua vida nasceram mais da necessidade de aceitação do que de vontade genuína.

Estudos em neurociência demonstram que situações de exclusão ativam regiões cerebrais associadas à dor física, como o córtex cingulado anterior, ou seja, ser rejeitado não é apenas emocionalmente desconfortável, biologicamente, o cérebro reage como se estivesse em perigo.

Talvez isso explique porque algumas opiniões nos afetam tanto, porque certos silêncios parecem pesados ou porque tantas pessoas vivem constantemente preocupadas em corresponder às expectativas alheias.

Desde cedo aprendemos a garantir ligação emocional, em parte, isso é saudável. O ser humano possui uma enorme capacidade de ajustamento social, e essa flexibilidade foi fundamental para a evolução da espécie.

O problema surge quando a adaptação deixa de ser consciente e passa a tornar-se automática.

Pensa em quantas versões de ti existem.

A maneira como falas com amigos, provavelmente não é igual à forma como ages em ambiente profissional, o teu comportamento junto da família, pode mudar completamente num contexto novo, pequenas diferenças são naturais.

Mas quando começas a alterar opiniões, emoções, gostos e até objetivos apenas para garantir aprovação, algo subtil acontece: a distância entre quem és e quem mostras começa a aumentar.

Muitas pessoas passam anos sem perceber essa divisão interna. Riem de algo que não acharam realmente graça, concordam para evitar conflito, escondem partes da personalidade para não parecer “demasiado” ou ajustam constantemente a própria forma de vestir, pensar e agir conforme o ambiente, isoladamente, essas adaptações parecem pequenas, no entanto, repetidas durante anos, podem transformar-se numa identidade construída quase exclusivamente para funcionar socialmente.

Em psicologia social, este fenómeno aproxima-se do conceito de “autoapresentação”, desenvolvido pelo sociólogo Erving Goffman.

Segundo a sua perspetiva, grande parte das interações humanas funciona como uma representação social, dependendo do contexto, assumimos diferentes personagens.

O problema não está na existência dessas versões, mas no custo psicológico de representar continuamente sem espaço para autenticidade.

Pessoas excessivamente dependentes de validação externa tendem a apresentar maiores níveis de ansiedade social, insegurança crónica e dificuldade em reconhecer desejos genuínos, até que, já não conseguem distinguir aquilo que realmente querem daquilo que aprenderam a desejar para serem aceites.

Muitas vezes, aquilo que os outros aceitam não é o “eu” verdadeiro, mas apenas uma versão adaptada, editada e emocionalmente controlada.

Talvez por isso o silêncio incomode tanta gente.

Quando desaparecem distrações, notificações e expectativas externas, sobra um contacto direto consigo próprio que nem sempre é confortável.

Algumas pessoas descobrem nesse silêncio emoções que passaram anos a ignorar. Outras percebem que construíram objetivos inteiros em função de reconhecimento social.

E aqui existe um ponto importante, desenvolver identidade própria não significa deixar de se importar com os outros, a questão é perceber quando a necessidade de aceitação começa a substituir a própria individualidade.

Construir validação interna é um processo lento precisamente porque o cérebro humano foi condicionado durante anos a procurar referências externas,  reconhecimento social ativa sistemas ligados à dopamina, neurotransmissor associado à motivação e prazer, o problema surge quando o valor pessoal passa a depender exclusivamente dessa recompensa.

Talvez maturidade emocional não tenha tanto a ver com autoconfiança absoluta, mas sim com a capacidade de tolerar a possibilidade de não agradar sempre.

Porque inevitavelmente haverá momentos em que ser autêntico vai dececionar alguém.

Nem todas as versões verdadeiras de ti serão confortáveis para os outros.

E talvez um dos maiores desafios da vida adulta seja precisamente aceitar isso sem culpa constante.

Bruno Collaço, o autor do texto

2 respostas a “Quem És Quando Ninguém Está a Olhar?”

  1. Avatar de Célia Carvalho

    Gostei.

    1. Avatar de Bruno Collaço
      Bruno Collaço

      Obrigado!

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