A pergunta “o que significa existir?” parece simples, mas é uma das mais profundas que podemos fazer.
No dia a dia, assumimos que sabemos a resposta, mesas existem, árvores existem, nós existimos. Mas quando olhamos com mais atenção, especialmente através da ciência e da filosofia, essa certeza começa a desfazer-se.
No início do século XX, filósofos como Bertrand Russell e W. V. O. Quine tentaram esclarecer o significado da palavra “existir”. Para eles, dizer que algo existe não é atribuir uma característica especial, como “ser vermelho” ou “ser pesado”. É apenas dizer que algo corresponde a uma descrição.
Por exemplo, dizer “unicórnios não existem” significa que nada no mundo corresponde à ideia de unicórnio.
Essa abordagem trouxe clareza ao pensamento, mas deixou uma sensação incompleta. Ela explica como falamos sobre o que existe, mas não explica o que é existir em si.
Quando entramos no campo da física, a questão torna-se ainda mais intrigante. A ciência moderna mostrou que aquilo que parece sólido não é, no fundo, tão sólido assim.
No nível mais básico da matéria, encontramos partículas que não se comportam como “coisas” fixas.
O físico Werner Heisenberg demonstrou que não podemos conhecer ao mesmo tempo certas propriedades fundamentais, como posição e velocidade, com total precisão.
Mais ainda: antes de serem observadas, as partículas não têm propriedades bem definidas, apenas probabilidades.

Mais recentemente, o físico Carlo Rovelli propôs que as propriedades das coisas só existem em relação a outras coisas.
Ou seja:
Nada tem uma existência totalmente independente. Tudo depende de relações.
Isso muda profundamente a forma como entendemos o mundo. Em vez de pensarmos na realidade como um conjunto de objetos isolados, começamos a vê-la como uma rede de interações.
A questão então torna-se, se tudo está em relação, existe algo que sustenta essa rede? Ou é apenas um conjunto de relações sem um centro?
Na cosmologia, essa pergunta aparece de outra forma: por que existe algo em vez de nada?
Sabemos que o universo teve um início há cerca de 13,8 mil milhões de anos e conseguimos descrever a sua evolução com bastante precisão. Mas ainda não sabemos por que existem as leis que governam esse processo.
O físico Stephen Hawking sugeriu que o universo pode não precisar de uma causa externa. Ainda assim, a pergunta permanece, por que existem leis físicas?

Ao longo da história, diferentes tradições deram respostas distintas. O filósofo Avicenna e o teólogo Thomas Aquinas argumentaram que tudo o que existe pode ser dividido em duas categorias, aquilo que existe necessariamente e aquilo que poderia não existir. Segundo eles, o mundo depende de um fundamento necessário.
Por outro lado, o filósofo budista Nagarjuna propôs uma ideia diferente, nada existe por si só. Tudo depende de causas e condições.
Nada é completamente independente.

Curiosamente, apesar das diferenças, há um ponto comum entre essas visões e a ciência moderna, a ideia de que nada existe isoladamente.
Isso tem consequências importantes.
Se tudo está ligado, então as nossas ações também não são isoladas.
O que fazemos tem impacto nos outros e no mundo.
A ideia de independência total começa a perder sentido.
Também muda a forma como nos vemos.
Em vez de sermos entidades fixas e separadas, passamos a entender-nos como parte de uma rede maior, biológica, social e até cósmica.
Mas há algo ainda mais interessante: entre tudo o que conhecemos, apenas os seres humanos parecem ter uma consciência temporal de existência e ao mesmo tempo pensar sobre ela.
Podemos pensar sobre o facto de estarmos aqui. Podemos questionar, refletir e tentar compreender o mundo e a nós mesmos.
E talvez essa seja a parte mais interessante.
Mesmo que não tenhamos uma resposta final sobre o que significa existir, podemos reconhecer algo essencial: existir não é apenas estar presente no espaço e no tempo.
É fazer parte de algo maior.
É estar em relação.
E compreender isso pode mudar profundamente a forma como vivemos.
Continua…

Bruno Collaço, o autor do texto







