(Continuação)
Pôvô Flôgá II (Povo que ri)
Esta ligação trouxe-me algum sal, condimento perfeito ao sabor da vida. E sim, foi ele que me levou a conhecer usos e costumes das gentes São-tomenses.
Ao fim de semana e porque a vida se celebrava sem atropelos, os Deuses se faziam ouvir na voz dos anciãos, a aguardente de palma passava de mão em mão desinibindo os sentidos, levantando a poeira dos terreiros em danças de roda hipnotizantes, “electrificando” a mente e o corpo, enquanto as mensagens dos idos se manifestavam e um ou outro participante entrava num transe esbracejante, caindo por invocação das forças superiores.

Surgiam os conselhos e revelações, indo no fim, todos em paz.
Destas inesquecíveis experiências, saliento o teatro , a representação do Tchiloli durante horas dialogantes, convidando eu o leitor a inteirar-se da história.

Depois, a fantástica dança guerreira, só efectuada por homens, o Danço Congo, cuja alucinante exibição era verdadeiramente contagiante, sempre num crescendo frenético ao som dos reco-recos que seguravam junto a si como fazendo parte do corpo, numa quase homenagem ao movimento, pungança física e sensualidade, deixando no chão o rasto do suor que lhes escorria dos corpos, numa poça de milhentas gotas.
Não se trata de exagero da minha parte é pura verdade.

Ainda há o Feiticeiro!

A espiritualidade deste homem era enorme, sábio, mas…precisava ganhar dinheiro para alimentar, vestir e calçar as suas crianças:
De quando em vez lá matava uma galinha e usava o que entendia ser o poder a troco de uma notita , pois tal feitiço era caro .
(Continua)

Maria Dulce Araújo, a autora do texto







