Sentada nas rochas, Eva descansa e observa. Por vezes, gosta de ficar assim, simplesmente apreciando os múltiplos cenários que o mundo lhe oferece. É importante deixar-se envolver pelos pensamentos, pois é neles e através deles que se descobre, apreende e define como ser humano.
Nem sempre é agradável o que lhe vem à mente… há coisas que precisa esquecer.
Há cenas que importa conservar vivas na memória, guardando-as bem no fundo do baú, que é o seu subconsciente.
Não pode sofrer perturbações.
É importante que recupere para seguir adiante, construindo, a par e passo, novos ideais que lhe ajudem a alargar os horizontes e a perceber novas eventualidades.
Francisco partiu, é um facto. Agora, mais calma, já o consegue aceitar. Amá-lo-á para sempre.
…
Estivera com ele naquele exato lugar. Prometera regressar e cumprira, apesar de levar consigo a recordação de momentos que lhe marcaram profundamente a existência.
Recordou o amor feito.
A briga com o tipo que lhe lançara o piropo.
O telefonema noite adentro e que agora deduzia ser da ex-mulher.
As discussões que tiveram naquele fim-de-semana, filosofando sobre a finitude e sobre a vida para além da vida. Falaram de religiões, da sua influência e poder sobre as sociedades ao longo da história e da necessidade de se acreditar na existência de algo superior para dar sentido à vida e à própria morte.
“Se eu morrer, que seja nos teus braços e de amor!” Dissera Francisco, tentando mudar o rumo da conversa.
“Em mim, meu querido, não morrerás jamais!”
Naquela altura, respondera convicta de que assim seria. Eternizá-lo-ia nesta vida, enquanto existisse. Depois, quando chegasse a hora de abandonar este mundo, uniriam as almas para a eternidade.
Nunca tinha sentido a necessidade de rezar, mas agora entendia a oração como um refúgio e um consolo para o espírito.
Queria rezar-lhe pela alma, para que Deus lhe perdoasse as faltas e a acolhesse no seu seio.
Fechou os olhos e elevou o pensamento numa pequena prece.
…
As horas foram passando. Eva permanecia no mesmo lugar, impávida e serena, de olhar fixo num azul infinito… de céu, de mar, de expetativas. Atrás de si, erguia-se, imponente, o grande farol da Barra.

O dia estava quente e o sol refletia o brilho dos seus cabelos. Ao longe, um homem observava, preocupado com o semblante apático da mulher que parecia completamente alheia à realidade. Queria aproximar-se, mas não sabia se devia fazê-lo. Podía ser mal interpretado. Depois, não estava sozinho e também não queria alertar os amigos para algo que lhe era tão novo… como o perfume que lhe chegava daquela direção… decidiu manter-se afastado, apenas observando. A mulher não estava bem e demonstrava-o pela tristeza e apatia que refletia de longe. O que fazia sozinha naquele lugar era algo enigmático.
“Terá tendências suicidas?”, questionou-se preocupado, decidindo ficar atento a qualquer gesto ou atitude estranha. “Se, entretanto, precisar de ajuda, irei em seu socorro.”
O homem tentou abstrair-se, desviando o olhar da figura triste e frágil. Porém, algo nela lhe despertava a atenção. Não o sabia explicar ou descrever, mas uma força superior impelia-o na direção da rapariga. Como explicar a enorme necessidade que sentia de a proteger, de velar por ela? Entrementes, ganhou coragem e decidiu aproximar-se.
…
Para Eva, tudo permanecia igual.
O mesmo sol, o mesmo ponto equidistante, a mesma nuvem de algodão no mesmo espaço sideral.
O mesmo gracitar das gaivotas.
O mesmo mar.
A mesma dor e angústia causadas pela saudade.
Respirou fundo. Calmamente, foi desviando o olhar na direção do homem que se aproximava.
“Meu Deus! Não pode ser… estarei a sonhar? O mesmo andar, a mesma figura garbosa, o mesmo esbracejar!…
É Francisco que regressa para mim. Franciscoooo!” Gritou, deslumbrada.
Tentou levantar-se, mas ao fazê-lo, o chão abriu-se a seus pés, a terra girou apressadamente e ela caiu desfalecida.
Eva sofrera uma insolação. Demasiado tempo de exposição ao sol, sem ingerir líquidos e sem usar um chapéu, levou-a à desidratação e ao desmaio. Aos poucos, foi saindo da dormência que a envolvera. A visão tornou-se clara. A respiração mais regular.
“Alguém me explica onde estou e como vim aqui parar?” Perguntou, ainda aturdida pela perda dos sentidos.
“Está em segurança, menina! Não deve preocupar‑se.”Respondeu o homem, sem conseguir desviar o olhar daquele rosto esmaecido e de expressão fragilizada. No entanto,tão feminino…
“Segurei-a quando desmaiou. Imagine que batia com a cabeça na esquina da rocha!…” e apontou a pedra tosca onde ela estivera sentada minutos antes.
Era certo que não o conhecia, mas havia nele uma aura misteriosa que lhe despertava interesse e familiaridade.
Tinha tantos traços de Francisco!
A mesma figura esbelta, o rosto moreno e a barba aparada.
Os cabelos negros com algumas brancas à mistura.
A mesma doçura que refletia o olhar dos dias calmos e prazenteiros…
O coração acelerava-lhe no peito, deixando-a confusa. Uma energia fortemente positiva emanava da figura do homem-anjo parado à sua frente. O olhar penetrante parecia um ímã que os fazia convergir para um mesmo ponto.
“Meu Deus!… Como se parece com ele!”, sussurrou.
Os pensamentos confundiam-se-lhe na mente e a vontade de saber mais sobre aquele estranho já se sobrepunha à racionalidade. Precisava descobrir quem era, de onde vinha e o que fazia ali. Porque a olhava de forma tão doce e profunda, a ponto de lhe perceber a reação e até de a salvar de uma situação em que podia ter‑se magoado seriamente.
“Por favor… Pode largar-me a mão?”, pediu, sorrindo com o olhar. “Já estou bem, obrigada!”
O homem sorriu também. Estava tão enlevado a olhá‑la que nem se apercebeu da firmeza com que lhe segurava na mão.
“Está mesmo bem, menina? Parece muito debilitada!…”
Eva corou, reconhecendo um certo conforto na atenção que o sujeito lhe dispensava e ficou ainda com mais vontade de o conhecer, mas, mais importante que tudo, de perceber por que se sentia tão bem na sua companhia.
O que faz por estas bandas, senhor?
Eva ousou perguntar.

In “ROSAS BRANCAS”
– Romance – (Capítulo XLVI) – Chiado Books, 2016

Dulci Ferreira, a autora do texto







