Sabes, a vida passa a correr e nem sempre a agarramos e fruímos como deveria ser.
A ambição leva à mudança, que é boa, se não for desmedida; se não causar, no outro, um profundo beliscão ou mesmo ferida.
Crê, quando te digo que há momentos em que nos recordo com a ternura da infância; outros, porém, com a lâmina afiada da saudade, aquele sentir que faz sangrar o peito, aquele espremer que nos arrasa por dentro, que faz aflorar a lágrima que nos foi lagoa de vazios em noites de pura carência.
Tempos houve em que o teu olhar em mim se demorava… calado, absorto, deslumbrado, como reflexo de espelho que nos prende à possibilidade de um no outro nos determos e ali, enlevados, nos deixarmos ficar para sempre, qual promessa irrefreada de um eterno adolescente.
Foi assim que, um dia, em ti me deixei submergir, para no teu imo me perder e no teu colo me fazer mulher.
Porém, o maior pedaço dos dois fui sempre eu e aquela persistência, de em ti permanecer e de por ti tudo fazer, minimizando a singular amplitude da tua ausência.
Na solidão que tantas vezes me envolvia (e esta outras tantas o meu mais recôndito refúgio), a tua silhueta desvelava e numa oração ao Pai pedia que nenhum mal te abeirasse.
Na mesma prece, sobre mim dizia, sendo-me concedida a paz da minha dormição.
No fim de contas e como diz o poeta, o que procuramos é a reconciliação do nosso eu interior com a pele que nos reveste para que, na harmonia dos sentidos, em cada olhar, fragrância e sensação, a estabilidade emocional que todos almejamos, se revele em permanência. E tudo é mais belo e útil com afetos e em perfeita comunhão.
É assim que amamos em presença, ainda que, por vezes, na ausência da suprema simetria, que o sentimento do amor solicita e contempla.
(direitos reservados)

Dulci Ferreira, a autora do texto







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