Se a ciência e a filosofia sugerem que tudo existe em relação, então surge uma nova pergunta, como vivemos essa realidade?
A resposta passa por algo muito particular, a consciência.
Ao contrário de outros fenómenos naturais, os seres humanos não apenas existem, sabem que existem e pensam sobre essa existência.
Podemos parar por um momento e pensar “eu estou aqui”.
Essa capacidade foi destacada pelo filósofo René Descartes, que afirmou que o simples ato de pensar já prova a nossa existência.
Hoje, sabemos que a questão é mais complexa, mas a ideia continua relevante, a consciência dá-nos acesso direto à experiência de existir.
A ciência moderna tem procurado explicar como isso acontece.
O filósofo Thomas Metzinger defende que aquilo que chamamos “eu” não é uma entidade fixa, mas uma construção do cérebro.
É como um modelo que o cérebro cria para organizar a experiência.
De forma semelhante, o neurocientista Antonio Damasio explica que a consciência surge da interação entre o cérebro e o corpo. Não é algo separado, mas um processo ligado à vida biológica.
Essas ideias aproximam-se das reflexões de David Hume, que já no século XVIII sugeria que o “eu” não passa de um conjunto de experiências em constante mudança.
O que tudo isso significa, em termos simples?
Que aquilo que sentimos como “quem somos” não é algo fixo e imutável.
É um processo em evolução.
Isso pode parecer desconfortável, mas também tem um lado positivo. Se não somos fixos, podemos mudar. Podemos aprender, adaptar-nos, crescer.

A consciência também nos liga aos outros.
O nosso pensamento depende da linguagem, e a linguagem é algo coletivo.
As nossas emoções são influenciadas pelas relações.
Até a forma como vemos o mundo é moldada pela cultura.
Ou seja, até a nossa mente é relacional.
Essa ideia tem implicações práticas importantes.
Por exemplo:
Perceber que não somos entidades isoladas pode tornar-nos mais atentos ao impacto das nossas ações.
Pode aumentar a empatia e a responsabilidade.
Também pode ajudar a lidar com mudanças.
Se entendemos que tudo está em constante transformação, torna-se mais fácil aceitar perdas e transições.
Por outro lado, a consciência também tem um lado difícil. Saber que existimos implica saber que somos finitos. Isso pode gerar ansiedade e insegurança.
A psicologia tem estudado esse fenómeno.
A chamada “teoria do terror da morte” mostra que a consciência da nossa mortalidade influencia muitas das nossas escolhas e crenças.

Então, como lidar com isso?
A investigação científica, sugere algumas estratégias práticas.
Uma delas é desenvolver maior consciência do momento presente, prestar atenção ao que estamos a fazer, sentir e pensar.
Outra é fortalecer as relações, reconhecendo que fazemos parte de uma rede maior.
E outra ainda é orientar a vida por valores, em vez de apenas reagir às circunstâncias.
No fundo, trata-se de viver de forma mais consciente. Perceber o impacto das nossas ações.
Essas mudanças podem parecer pequenas, mas têm um efeito profundo.
Elas aproximam-nos da realidade, de que fazemos parte de algo maior, não no sentido abstrato, mas no sentido concreto das relações que vivemos todos os dias.

A ciência mostra que somos parte de um universo em evolução. A filosofia ajuda-nos a pensar sobre isso. E a consciência permite-nos viver essa realidade de forma mais clara.
No final, talvez a questão mais importante não seja apenas “o que é existir?”, mas algo mais direto, como estamos a viver o facto de existir?
A resposta não está em teorias complexas.
Está nas escolhas que fazemos, momento a momento.

Bruno Collaço, o autor do texto







