Sentada na soleira da porta, entrada de todas as entradas e de outras tantas saídas – porque ninguém fica eternamente no mesmo lugar, a não ser quando se adormece para não mais acordar – deixo fluir os pensamentos.
É nestas ocasiões – de completa introspeção -, que me entendo um todo consciente.
Nesses momentos, há existência em mim e nela me vejo flor em estufa de cristal, bela e omnipresente.
Porém, há dias em que me concebo rosa anacrónica, definhando lentamente em jardins desprovidos de cor e de sonhos. Ontem, me entendi hoje, em espelhos ilusórios refletida. Para lá deles, apenas uma imagem sombria e distorcida, tal como hoje me percebo alvorada, tão-somente e, do mesmo modo.
Imagem triste e desfocada.
Há noites polvilhadas de estrelas. Ao mirá-las, apreendo-me uma delas, caindo a pique no abismo da insatisfação. Mesmo assim, peço o almejado desejo.
Sabes, desejar é querer e estar vivo.
É pensar e tentar o equilíbrio entre os dias em que somos de verdade e aqueles em que deveríamos ser simplicidade.
Foco a imagem no espelho e vejo para lá de mim… Naquele entorpecido horizonte está um velho e um banco de jardim.

Um e outro, são o colo onde outrora me sentei.
Agora, outra verdade. Folhas caíram e secaram, e musgo cresceu sobre as pedras que ruíram no velho castelo. No entanto, muitos passos ainda se detêm por ali. O tempo passou a correr e o meu corpo acordou cansado. Há rugas e pregas a revestir as paredes do meu santuário.
Sabes… Não há feiura na simplicidade de ser ou querer afirmar-se liberdade, num viver singularmente extraordinário. Há portas que nunca fecho! Quanto a ti… “Se vens por bem, entra!”
In “Utopias do Pensamento”, Vol. II – “Entre o Sonho e a Realidade”, Chiado Books, 2018

Dulci Ferreira, a autora do texto







