Era uma vez uma linda pretinha
Ágil e sempre bem arranjada
Que se chamava carochinha
E gostava da cozinha arrumada

Um dia ao varrer cinco reis achou
Excitada e a pular de contente
O seu pequeno avental tirou
E pôs-se à janela bem sorridente
Vestida de preto como gostava
Perguntava a quem passava
Quem quer casar com a carochinha
Que é pequena mas engraçadinha

Do alentejo um porco que passava
Gordo e muito bem tratado
Disse logo que com ela casava
Para a ter sempre a seu lado
O que comes? logo perguntou
De tudo, não sou esquisito
A carochinha a pensar ficou
Mas logo disse; não és bonito

O porco triste e envergonhado
Não ficou mesmo nada contente
E embora ficasse atrapalhado
Voltou-lhe as costas de repente
E de novo feliz voltou a perguntar
Quem quer casar com a carochinha
Um garboso gato disse logo a miar
Que estava disposto a arriscar

Que comes tu meu pequenino?
Carapaus é o meu prato preferido
Não: quero um marido mais fino
Vai embora. És muito atrevido
O gato das botas das sete léguas
De orelhas espetadas e despeitado
Não lhe quis dar tréguas
E foi embora de rabo alçado
De novo a carochinha perguntou
Afinal quem quer casar comigo?
Um vozeirão forte logo falou
Quero eu, que sou teu amigo

Que comes? Preciso mesmo de saber
Como de tudo para me alimentar
Não serves. Lamento ter que te dizer
Não és delicado para comigo casar
O boi que era um bonacheirão
Ruminando no que disse a pretinha
Com alguma tristeza no coração
Disse adeus à linda carochinha
Quem quer casar com a carochinha
Que é pequena e bem engraçadinha
Um coelho que ia numa corridinha
Disse: casa comigo linda pretinha
De que te alimentas coelho bonito
Cenouras, troços e ervas tenrinhas
Ela achou tudo muito esquisito
Não gostava daquelas comidinhas

O coelho que era um garoto
Com uma careta de despediu
Para um prado saltou maroto
E boas ervilhas lá descobriu
Já muito triste e arreliada
Pois um marido não aparecia
A carochinha já desconfiava
Se ia ter o que tanto queria

E, zangada voltou a perguntar
Querem casar com a carochinha
Sou pequena e bem engraçadinha
E, um bom marido quero arranjar
E um minúsculo ratinho
Esperto e muito ladino
Disse logo: quero eu
E dou-te tudo o que é meu
A carochinha muito feliz perguntou
O que comes tu meu lindo ratinho?
E pronto o rato logo a informou
Como queijo fiambre carne e toucinho
Radiante a gulosa carochinha
O seu maridinho encontrou
Que a achou muito engraçadinha
E, com ela muito feliz logo casou

Foi uma festança de arromba
Toda a bicharada foi convidada
Já a noitada ia bem longa
Quando acabou a jantarada

No domingo seguinte a carochinha
Da missa habitual ia a caminho
De chapéu e muito bem vestidinha
De braço dado com o seu amorzinho
Das luvas, deu falta de repente
O que pensaria a bicharada
Ficou tão triste e descontente
Que já não lhe apetecia nada

O joão ratão seu amado marido
Atrás voltou para as ir buscar
Só mostrou ser também seu amigo
E que com ele podia sempre contar
Abriu a porta e, que cheirinho
Nas luvas jamais pensou
Tinha que provar o toucinho
E, a panela logo destapou
Guloso na panela meteu a mão
Só queria um bocadinho tirar
E, o descuidado joão ratão
Caiu à panela por ir espreitar

Impaciente a carochinha esperava
O pezinho não parava de bater
Foi para casa, muito zangada
Por o seu joão ratão não aparecer
Ao chegar parou-lhe o coração
A sua panela estava destapada
O cheiro a toucinho era tão bom
Que mesmo sem comer consolava

O seu ratinho tinha morrido
Por ser guloso foi castigado
Por ninguém foi socorrido
Não se podia fazer mais nada
A pobre carochinha muito chorava
As lágrimas eram o seu sofrimento
E só no seu joão ratão pensava
Estava a viver um grande tormento

E, muito triste chorava e cantava
Ai o meu rico marido joão ratão
Que morreu cozido no meu caldeirão
E, por ele eu já não posso fazer nada
Pensava em todos os pretendentes
Outro, podia ter sido escolhido
Mas eles é que ficaram contentes
Por nada de mal lhes ter acontecido

E, pensava, sentindo-se muito culpada
Estou viúva e muito e desamparada
Porque, o mais fino marido quis ter
E, agora sozinha vou ter que viver






