Tenho o ar que respiro.
O sangue que me corre nas veias, aquece o meu corpo porque circula de forma bravia.
Tenho o cérebro aceso como as fogueiras e crepito os pensamentos como faúlhas levantadas a vento.
Não posso dizer que nada tenho, mas também não afirmo tudo ter.
Que valor tenho eu por avaliação, que me permita sair desse impasse. Haverá regras, tabelas quantitativas, uma contabilidade analítica capaz de produzir resultados para uma cabal resposta.
É assim que funciona, é assim que nos definem, sem mergulharem fundo.
Ninguém é um abismo! Basta saber andar e ter equilíbrio.
As águias vivem nas alturas e são ricas porque têm os céus. Voam sumptuosas, mas de que serve a imensidão se é bem rente ao chão que colhem alimento.
O mendigo é pobre porque para ele não existe meio termo: ou tem uns trocos para comer ou nada tem e dorme na rua da fome.
Não sou águia nem mendigo.
Sou uma ínfima partícula do Universo.
Todos somos.
Então para quê tanto ruído?

Maria Dulce Araújo a autora do texto







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