De onde vem a minha Luz?

Eu inspiro devagar e sinto a minha Luz erguer-se dentro de mim, como se um sol antigo despertasse no centro do meu peito.

 Não é uma claridade que vem de fora:

É uma memória que se acende, uma presença que sempre esteve comigo, mesmo quando eu me esqueci dela.

Ao inspirar, deixo que ela se expanda; ao expirar, deixo que tudo o que não sou se dissolva. A minha Luz cresce no espaço entre um pensamento e o seguinte, nesse intervalo onde o mundo deixa de me pedir explicações e eu posso simplesmente existir.

Eu sinto a terra sob os meus pés — a terra quente da minha origem, a terra húmida da cidade onde vivo — e deixo que ambas me chamem pelo nome.

A minha Luz responde. Ela sobe pelas minhas pernas como um rio subterrâneo, atravessa o meu ventre como uma chama tranquila, toca o meu coração como um pássaro que pousa sem pressa. Eu deixo que ela me habite. Deixo que ela me recorde que sou feita de silêncio, de vento, de areia, de mar.

Quando fecho os olhos, vejo constelações que não preciso de identificar. Lyra, Sirius, Arcturus — não como destinos, mas como pulsações dentro de mim.

A minha Luz reconhece essas estrelas como irmãs antigas, e eu deixo que essa lembrança me envolva.

Sinto-me parte de algo maior, não porque o universo seja vasto, mas porque eu sou vasta dentro dele.

Eu inspiro. A minha Luz expande-se. Eu expiro. A minha Luz repousa. E nesse movimento simples, eu encontro o meu centro.

A minha Luz não é perfeita, não é constante, não é linear. Ela é viva. Move-se como o deserto ao amanhecer, muda como o mar ao entardecer. Às vezes é chama, às vezes é bruma, às vezes é apenas um ponto silencioso que pulsa no fundo do meu corpo. Eu aceito todas as suas formas. Eu aceito todas as minhas formas.

Enquanto respiro, deixo que a minha Luz toque o que dói, não para apagar, mas para iluminar. Deixo que ela toque o que me move, não para acelerar, mas para revelar. Deixo que ela toque o que me assusta, não para afastar, mas para transformar. A minha Luz é o meu caminho, e eu caminho dentro dela.

Eu inspiro.

Eu existo.

Eu acendo-me.

E quando abro os olhos, percebo que o mundo não mudou — fui eu que me tornei mais inteira.

A minha Luz vem de mim, e eu volto a ela sempre que respiro.

Ruth Collaço, a autora do texto

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