Lilith nasce antes da culpa.
Na tradição Suméria, era Lilitu, o espírito do vento e da noite — uma força livre, errante, que atravessava o deserto e o sonho. Quando o mito hebraico a absorve, transforma-a em demónio, não porque fosse maligna, mas por ser incontrolável.
Lilith não se ajoelha. Ao recusar deitar-se sob Adão, não por orgulho, mas por consciência (pois ambos foram moldados da mesma terra, e nenhum é superior ao outro). Esse gesto, o de se exercer o direito à recusa, tornou-se o símbolo da autonomia espiritual. Por isso, é expulsa do Éden, não como castigo, mas pelo ato de fidelidade à própria essência.
O exílio de Lilith é o nascimento da liberdade.
Ela escolhe o deserto, o vento, a solidão — lugares onde o feminino pode respirar sem moldes. O mito, ao chamá-la demónio, revela o medo ancestral da mulher que não se submete.
Mas o símbolo é antes, bem mais claro, é que Lilith é o instinto puro da alma, o grito que diz “não pertenço a ninguém”. Ela é o eros que não se curva, a sabedoria que nasce da sombra, o espelho onde o feminino se vê sem máscara.
Lilith não é inimiga (ou oposta) de Adão, mas sim o seu reflexo.
Se por um lado Adão representa o princípio da forma, Lilith representa o princípio da consciência. Mas eis que quando se separam, nasce o conflito entre matéria e espírito, mas quando se reconhecem, nasce o equilíbrio entre o Sagrado Masculino e o Sagrado Feminino. O mito é, portanto, uma metáfora da, e aqui sa_li_en_to, integração interior, o humano dividido entre o impulso e a alma, entre o poder e o amor, entre o domínio e a entrega, e mais uma vez digo que é a nível in_te_ri_or.
Lilith é o arquétipo da mulher que prefere o abismo à obediência, o silêncio à mentira, o deserto à prisão. Quem a invoca não chama um demónio, chama a parte de si que não aceita ser moldada.
Lilith, caros leitores é o nome da liberdade primordial, o fogo que arde no ventre da criação, o sopro que recorda que o divino também é carne.

Ruth Collaço, a autora do texto







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