“Quem você É?”

Hoje, dei-me o direito de escrever, não uma análise puramente científica, mas sim, de fazer uma autópsia do “Eu” contemporâneo, sob a lente da etologia e da psicobiologia.

Como biólogo que passou muitos e muitos anos, observando o comportamento em campo, aprendi que nenhum organismo floresce em um habitat para o qual não foi evolutivamente preparado.

E o habitat humano atual é um deserto de significados estruturantes.

Órfãos Digitais

Para responder “quem você é?”, não podemos olhar apenas para o “ego”, precisamos olhar para as Quatro Questões de Tinbergen. Para entender o comportamento humano, precisamos analisar sua causalidade imediata, seu desenvolvimento (ontogenia), sua função adaptativa e sua evolução (filogenia).

Nos últimos 50 anos, houve uma rutura catastrófica nesses pilares.

A Ontogenia Corrompida

Na biologia do desenvolvimento, o imprinting e a aprendizagem social dependem de figuras de referência. O neuro desenvolvimento humano é “caro“, em termos de tempo e energia, ele exige o que chamamos de ambiente de adaptação evolutiva.

Historicamente, o “Eu” era forjado na execução de funções sociais estruturantes, dentro do núcleo familiar e comunitário. O jovem aprendia quem era ao observar o pai, a mãe, o ancião, não por mera imitação, mas por uma sincronia neurobiológica que moldava o córtex pré-frontal e o sistema límbico.

Hoje, vivemos um fenômeno de “orfandade funcional”.

O contato social primário foi substituído. Onde deveria haver o rosto humano e a mediação da realidade, há a luz azul.

Biologicamente, estamos criando cérebros em um vácuo de orientação humanista. Quando a família se retira, seja por necessidade econômica ou negligência tecnológica, o desenvolvimento do “Self” perde sua âncora.

O Viés do Entretenimento

Como biólogo, posso dizer que conheço bem, o conceito superestímulo, uma versão exagerada de um estímulo natural que provoca uma resposta comportamental mais forte do que o estímulo original para o qual o organismo evoluiu.

Um pássaro pode abandonar seus próprios ovos para chocar um ovo de plástico gigante e colorido.

O mundo mediático e o entretenimento instantâneo são os superestímulos da nossa espécie. A pergunta “quem é você?” foi sequestrada pelo sistema de recompensa dopaminérgico.

Em vez de uma identidade construída através da função social (ser útil à tribo, dominar um ofício, cultivar virtudes), as novas gerações são empurradas para uma identidade de consumo de atenção.

A função (para que sirvo?), foi trocada pela performance (como sou visto?).

A solidez do carácter foi trocada pela fluidez do algoritmo.

O resultado é um indivíduo com um sistema nervoso hiperestimulado, mas uma arquitetura do “Eu” atrofiada. Somos gigantes em processamento de dados e anões em solidez existencial.

A Filogenia Ignorada

Evolutivamente, o ser humano é um animal de vínculos profundos e rituais de passagem. A ausência de contato social físico e a troca de funções estruturantes por interações mediadas por telas geram uma incongruência evolutiva.

O “Eu” moderno é, muitas vezes, um subproduto de um viés cognitivo de confirmação, gerado por bolhas digitais. Perdemos a capacidade de nos definirmos através do embate com o “outro” real, o “outro“, que discorda, o “outro“, que nos obriga a amadurecer.

Sem esse atrito social presencial, o desenvolvimento humano estagna em uma adolescência perpétua, alimentada por feeds de entretenimento que anestesiam a angústia da falta de propósito.

O Retorno ao Biológico

Quem você é, realmente?”, hoje é uma pergunta que a maioria não consegue responder sem recorrer a rótulos de consumo ou diagnósticos psicopatológicos.

Como alguém que estuda a vida em sua forma mais crua, vejo que nos tornamos órfãos de nossa própria espécie. Para recuperar o “Eu“, precisamos resgatar a ecologia do desenvolvimento humano, o contato face a face, a hierarquia de aprendizado familiar, a responsabilidade social concreta e o silêncio necessário, para que a neuroplasticidade trabalhe a favor da sabedoria, e não apenas da sobrevivência digital.

Somos animais sociais, e sem o tecido social estruturante, o “Eu” é apenas um eco em uma sala vazia de espelhos digitais.

Bruno Collaço, o autor do texto

Comente aqui

É muito bom ter você aqui!

Há muito a ser visto em nossas páginas.
Siga-nos nesse Caminho do Universo, onde podemos buscar juntos o desenvolvimento e a evolução individual.
Por isso, leve o tempo que precisar.

Conecte-se conosco!

Descubra mais sobre O Caminho do Universo

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading