Vem ver-me antes que o tempo se esgote.

Não!…
Não sei que te diga…
se tem cor esta existência
ou se o brilho que vês é, simplesmente
o feixe ténue de uma aura opaca e crepuscular.

Desconheço o que para mim o tempo reservou.
Também não consigo decifrar as siglas das pedras
que encontro, amiúde, pelos caminhos.
Mas compreendo agora as folhas caídas no chão…
Na essência, representam o decrescer dos dias,
o declínio da vida.

Olho em frente, o horizonte sombrio da serra
e a silhueta obscura que de longe projeta…
Parece que me observa e descortina!…
Pairam sobre os serros nuvens carregadas de incerteza.
Logo, a chuva precipitar-se-á e lavará os rostos cansados
das gentes envelhecidas que já não sabem sonhar.
Também no meu peito irá apertar a saudade
na ambição do regresso aos dias de sol e de paixão.

Lembro de quando entrelaçávamos os dedos
e caminhávamos de mãos dadas
ao encontro de uma ilusão…
Nessa altura, não havia para nós outono ou inverno,
apenas a primavera florescia e nos acalentava o verão.
Já tudo me parece tão longínquo!…

Temo pelo vazio que teima em apoderar-se da nossa razão
e receio que as lembranças não sejam plenas o suficiente
para camuflar os dias
em que me envolve o abraço alado da inquietação.

Já estremeci de amor só de ouvir-te falar, sabias?
Ainda que fora do alcance da vista e do toque da minha mão;
os olhos a sorrir e a bailar como um par de dançantes
a deslizar sensualidade pelo soalho encerado de um salão.

Chovem agora, das árvores, folhagens de outras cores…
Observo-as e espanto-me com a destreza do seu movimento,
no declinar de um tempo que teima em fugir de nós.

Vem ver-me antes que o tempo se esgote!
Vem, para que um outro tempo renasça e impeça
que o nosso amor sucumba ao abandono e à solidão.
Vivemos um tempo diferente,
um tempo de balanço, de revisitação.

Sim, vejo-nos diferentes, maduros, talvez…
cansados, certamente,
mas, sabes…
apesar das mãos trementes
do olhar opaco
das rugas e das pregas que a idade acarreta,
sei que sou, ainda, capaz
de abraçar com o mesmo vigor e emoção
de tantas outras horas.

Dulcí Ferreira a autora do poema

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