(Continuação)
As três classes
A minha curiosidade nesta nova experiência, levou-me a questionar o oficial com quem interagia mais, sobre as diferenças entre 1ª Classe (na qual viajava), 2ª Classe e 3ª Classe, ao que ele se prontificou imediatamente em fazer uma visita pelo navio.
Eu já tinha descido à 2ª para ir até à proa, reparando que no respetivo deck não havia espreguiçadeiras com almofadas, mas sim bancos corridos em madeira.
Praticamente nos últimos dias daquela longa viagem, lá fomos deixando a minha Mãe angustiada com receio de imponderáveis, recomendando rapidez, lá ficando sentada ao sol.
De facto, a 2ª pouco diferia da 1ª exceto no conforto e predicados alimentares.
Mas, a 3ª parecia nada ter a ver com um barco de passageiros: era um espaço fechado, com poucas aberturas de amurada, onde as pessoas se sentavam em bancos de madeira estreitos e as crianças corriam descalças. Nunca me hei-de esquecer daquele homem ainda novo, a cortar as unhas dos pés com um canivete e perguntando-lhe se não tinha quem lhe emprestasse uma tesoura, ergueu a cabeça espantado e respondeu
Para quê, menina?
O oficial agarrou-me delicadamente pelo cotovelo, numa insinuação clara para seguirmos caminho.
Perante o meu protesto ele contou que na tropa era assim à falta de melhor.
Posto isto, espreitei por uma porta que dava para um corredor, cujo teto era um entrançado de tubagem sussurrando nem sei explicar o quê.
Cheirava a fritos misturados com suor e água-de-colónia.
No regresso a minha Mãe estava no mesmo sítio a conversar com um casal da nossa mesa e eu não consegui imaginar aquele senhor bem posto e cheiroso a cortar as unhas dos pés como vira lá em baixo.
Afinal, as condições económicas catalogam as pessoas…e para quê se estamos todos no mesmo barco …?!
(Continua)
…

Maria Dulce Araújo, a autora do texto








2 responses to “Memórias de um mar que me leva e me traz- Parte 2”
Fechas com o dedo na consciência ferida da sociedade, apelando à lucidez… falta muito para a próxima 5a feira?
Caminhemos!