Há uma espécie de salmão que, depois de anos no mar, sente o chamado do rio onde nasceu e nada contra tudo, corredeiras, predadores, exaustão, até chegar a um lugar que já não existe em lado nenhum a não ser na memória do seu próprio corpo. Fascina-me, enquanto biólogo, esta obstinação; fascina-me mais perceber que também nós carregamos rios que nunca chegámos a percorrer.

Ao contrário do salmão, temos a duvidosa capacidade de fingir que esses rios não existem, e muitos de nós escolhem exatamente isso, ano após ano, até deixarem de se lembrar que alguma vez os ouviram correr.
Nenhum organismo vivo é estático, é a lição mais persistente que anos a estudar comportamento animal me deram. A vida biológica é adaptação contínua. E, no entanto, nós, a espécie mais orgulhosa da sua capacidade de mudar, somos muitas vezes os mais resistentes a fazê-lo. Não por incapacidade, mas por uma armadura construída com os anos, responsabilidades, medos herdados, promessas feitas a versões mais jovens de nós mesmos sobre o que era “sensato” e o que era “loucura”.
Erik Erikson descrevia a meia-idade e a velhice como cruzamentos tão decisivos quanto qualquer outro, não o fim de um percurso, mas uma escolha entre a estagnação e a generatividade.

Contraria de frente a crença de que a reinvenção tem prazo de validade, a neurociência confirma-o sem sentimentalismo, ao mostrar que o cérebro mantém a capacidade de formar novas ligações ao longo de toda a vida. O limite é quase sempre cultural, raramente celular.
Há anos, numa aldeia no interior da Amazónia, um ancião disse-me algo que nunca me abandonou:
Que cada pessoa carrega, dentro de uma só vida, várias vidas por viver, e que recusar-se a viver uma delas, por medo ou acomodação, é uma forma de traição a si próprio quase tão grave como trair outra pessoa.
Não havia moral apontada a dedo, apenas uma constatação silenciosa, cada um de nós sabe, no fundo, o que ainda não viveu. Esse saber não desaparece com a idade, aprende apenas a calar-se.
A psicobiologia chama a isto dissonância entre o self ideal e o self percebido, a distância entre quem sentimos que fomos chamados a ser e quem somos no dia-a-dia.

Manifesta-se sem drama, como um peso ligeiro enquanto lavamos a loiça ou conduzimos no trânsito. Raramente pede grandiosidade; pede, quase sempre, algo simples e adiado, escrever aquele livro, aprender aquele instrumento, mudar de forma de amar. Coisas que sempre estiveram lá dentro, à espera apenas de permissão.
E é sobre essa permissão que vale a pena falar, porque é ela o verdadeiro obstáculo, não a falta de tempo, nem de talento, nem de coragem.
É a crença de que já não temos direito a recomeçar.
Simone de Beauvoir escreveu que envelhecer não deveria significar deixar de ter projetos, mas apenas mudar a sua escala.

Talvez seja essa a tarefa destes anos:
Não abandonar o que nunca tivemos coragem de assumir, mas finalmente dar-lhe o tamanho certo para a vida que ainda temos pela frente.
Há algo profundamente honesto em dar corpo, ainda que tardiamente, a algo que ficou anos apenas imaginado, uma história que insistia em ser escrita e que só agora, depois de tanto adiamento, ganha coragem para existir fora da cabeça de quem a sonhou.
Talvez o momento de virada não seja um raio que cai do céu numa terça-feira qualquer, mas um processo silencioso de reconciliação:
Parar de tratar os nossos desejos adiados como fantasias imaturas, e passar a tratá-los como aquilo que sempre foram, partes legítimas de quem somos, à espera do momento certo para respirar.

Se há algo que os animais, os anciãos e os rios sempre me ensinaram é isto:
A vida não pede perfeição para recomeçar.
Pede apenas que deixemos de negar o chamado.
Fica a pergunta, então, não para mim, mas para si:
Qual é o seu rio?

Brun Collaço, o autor do texto







Comente aqui